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domingo, 26 de maio de 2013

XV Fórum de Estudos Leituras de Paulo Freire

Na semana passada aconteceu na cidade de Taquara/RS o XV Fórum de Estudos Leituras de Paulo Freire. O projeto Teatro do Oprimido na Comunidade participou do fórum apresentando o trabalho intitulado "A EDUCAÇÃO PROBLEMATIZADORA DE PAULO FREIRE E O ENSINO DE TEATRO NA ESCOLA RAPHAEL BRUSQUE" escrito pelas tocomanas Graziele Barros e Fabiane  Tejada. O evento que iniciou na quinta-feira traz em sua composição participantes de muitas universidades gauchas, bem como pesquisadores de outros estados. O Fórum proporciona a troca de experiência entre pesquisadores de Paulo Freire. Ano que vem a Universidade Regional Integrada (URI) de Santo Ângelo irá sediar o evento. Abaixo segue o texto publicado nos anais do evento.



A EDUCAÇÃO PROBLEMATIZADORA DE PAULO FREIRE E O ENSINO DE TEATRO NA ESCOLA RAPHAEL BRUSQUE

Graziele Soares de Barros
Fabiane Tejada da Silveira
Universidade Federal de Pelotas – UFPEL
graziele.barros@yahoo.com.br
ftejadadasilveira@ig.com.br
Eixo de Diálogo: PAULO FREIRE e a arte, a cultura e a educação interdisciplinar.

Resumo:
Este texto pretende expor os conceitos da pesquisa que tem a finalidade de apontar os princípios que tornam possível o ensino de teatro por meio da educação problematizadora de Paulo Freire, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Raphael Brusque, no primeiro semestre letivo de 2013. A referente escola situa-se em Pelotas na comunidade Z3, uma colônia de pescadores. O objetivo dessa investigação é proporcionar o ensino de teatro baseado na problematização e indicar os elemento essenciais para tal prática. Nessa escola não houve até o presente momento uma educação teatral com essa abordagem, o que torna curioso estudar o que a viabiliza. Tais aulas serão ministradas pela pesquisadora Graziele Barros. A escola, neste momento, disponibiliza uma vez por semana um espaço para aulas de teatro durante um turno e essas se dão dentro do currículo de artes para alunos do sétimo ano.
Palavras-chave: teatro na escola; educação problematizadora; Paulo Freire.

Texto Completo:
O ensino de teatro calcado nas bases da educação problematizadora de Paulo Freire é o principal tema da pesquisa que se pretende fazer na Escola Municipal de Ensino Fundamental Raphael Brusque. Sendo assim, iremos trabalhar com aulas de teatro que tragam em sua metodologia um ensino que abra espaço para o aluno pensar, questionar e opinar, ou seja, um ensino baseado no diálogo e no respeito pelo saber do outro.
Dessa forma, ofereceremos oficinas teatrais semanalmente para os alunos do sétimo ano com encontros nos horários curriculares da disciplina de Artes. Esse espaço se abriu a partir do projeto de extensão Teatro do Oprimido na Comunidade (TOCO)[1], do qual nasceu essa pesquisa. O TOCO busca oferecer oficinas de teatro do oprimido[2] para bairros periféricos da cidade de Pelotas.
Essa escola, especificamente, nunca teve aulas de teatro com o objetivo de problematizar a realidade dos educandos e utilizar jogos teatrais[3] para embasar tais questionamentos. As aulas de teatro que tinham antes eram baseadas na montagem de espetáculo, ou seja, decorar textos e papéis e apresentar uma peça. Pelo fato de não haver até então uma abordagem calcada nesses jogos é que nos parece interessante buscar o que pode viabilizar esse ensino problematizador. Seria então uma busca pelas transformações do comportamento dos jovens a partir da metodologia teatral aqui destacada e a relação corpo-espaço que proporciona esse câmbio. Cabe destacar a importância do apoio da direção da escola, bem como do corpo docente para que o trabalho repercuta nas relações estabelecidas nesse espaço educativo.
O projeto TOCO já atua na Raphael Brusque desde o meio do ano de 2012 com oficinas extracurriculares. No entanto, notou-se que não havia interesse dos alunos pelas aulas fora do horário de aula. Conversando com o professor de artes desse estabelecimento pensou-se que talvez essa evasão aconteceu pela falta de informação dos alunos sobre o que é teatro. Para sanar essa preocupação achou-se por bem encaixar as oficinas no horário curricular. A direção dessa instituição nos mostrou apoio e interesse pela ideia, o que proporciona motivação para efetivar o trabalho. Sabe-se que o ensino de teatro é muitas vezes entendido como complementar à formação do aluno, mas não essencial. O fato de a escola ter a percepção de que era necessário que o teatro fosse transferido para o horário curricular nos mostra que ali se pensa diferente, e que eles compreendem a real importância desse ensino no currículo.
A escola em questão se localiza em uma colônia de pescadores na zona rural da cidade de Pelotas, sul do estado do Rio Grande do Sul. Os alunos que a frequentam também são todos provindos dessa colônia, e os professores em sua maioria são oriundos da zona urbana dessa mesma cidade. A estrutura física da escola tem alguns pequenos problemas por ser uma construção mais antiga. Além disso, a escola é pequena. Ao todo são onze salas de aula, sete salas administrativo-pedagógicas, um refeitório e duas salas para o programa Mais Educação[4].
A gestão da escola foi quem abriu as portas para que o TOCO fizesse um trabalho ali, com o intuito de trazer novas abordagens pedagógicas para o currículo. De acordo com a nossa avaliação, a gestão propõe uma relação dialógica com o corpo docente, pois sua postura ao ouvir as preocupações dos professores e tentar solucionar os problemas em conjunto demonstra essa vontade pelo diálogo, o que traz para a pesquisa um ponto favorável. Além disso, a gestora é moradora da colônia Z3 e também faz parte do corpo docente, o que, acredita-se, proporciona esse diálogo de fato.
Quanto aos professores da escola, ainda não tivemos muitas oportunidades de interação, mas nos pareceu no geral um grupo interessado no trabalho que faz. Apesar disso, trazem alguns discursos sobre certa “hierarquia de disciplinas”. Em algumas visitas que fizemos à escola notou-se que o modelo de ensino ainda se dá de acordo com a importância de disciplinas, como português e matemática. Tanto na quantidade de períodos, quanto no tempo para correções de provas, essas disciplinas têm preferência, pois há um consenso de que são matérias mais importantes do que as outras. Isso nos fez refletir sobre a necessidade de um trabalho baseado na afirmação da disciplina de arte como um espaço de construção de conhecimento efetivamente relevante para a vida do aluno.
Esses são alguns pontos que nos levaram a crer que seria justificável um trabalho de teatro que buscasse essa raiz freireana, com o objetivo de traçar caminhos que proporcionem um ensino que faça sentido para essas crianças, que lhes dê essa experienciação estética[5]. O objetivo desse estudo é primeiramente propiciar um espaço no qual os sujeitos dessa pesquisa se valham dos conteúdos teatrais e de fato se utilizem dele para seu crescimento pessoal.
Para além desses objetivos, buscamos verificar o que faz acontecer o diálogo em sala de aula, pois é a partir dele que se constrói a educação problematizadora. Segundo Freire (1987), a essencialidade do diálogo está no amor, na humildade e na fé nos homens, pois sem um desses elementos não se é possível o diálogo.

Ao fundar-se no amor, na humildade, na fé nos homens, o diálogo se faz uma relação horizontal, em que a confiança de um pólo no outro é conseqüência óbvia. Seria uma contradição se, amoroso, humilde e cheio de fé, o diálogo não provocasse este eliminar de confiança entre seus sujeitos. (FREIRE, 1987, p. 81).[6]

Dessa forma, o ensino problematizador com base no diálogo deve partir primeiramente da postura do professor para com o aluno. Ou seja, o educador que busca essa forma de agir deverá ter em sua concepção de mundo características da dialogicidade, já que ao se deparar com o problema real é preciso buscar a pergunta que melhor o envolva para que se faça o diálogo. Isso não se faz apenas na teoria como também na prática. Não se pode esquecer da práxis[7] necessária para a educação problematizadora baseada no diálogo e isso é o mesmo que dizer que não basta ser dialógico da porta da sala de aula para dentro, é preciso ser em sua vida.
O amor de que Freire fala seria um sentimento para o mundo, não apenas para os selecionados que estão em aula. Segundo o autor, seria um ato de coragem amar o mundo. Partindo da premissa de que amamos o mundo nós lutamos para transformá-lo em conjunto com o outro, e por isso amar além de ser o respeito ao outro é também dialogar com o outro.
O conceito de humildade que Paulo Freire comenta é no sentido do respeito pelo conhecimento do outro. Na concepção do autor, um não pode acreditar que seu conteúdo a ser passado deve ser mais importante do que o que vai aprender com o outro. Ou seja, não há diálogo se os sujeitos não se entenderem como complementares.
Por fim, a fé nos homens é necessária para que o diálogo nunca se finde, uma vez que somente acreditando na capacidade dos homens de refletirem sobre seu mundo e o transformarem é que vamos insistir nesse ensino dialógico. Esse ponto parece uma síntese dos dois anteriores, pois se temos amor pelo mundo e se nos acreditamos complementares certamente criaremos essa fé. O resultado desses três elementos é a confiança que se instaura entre educandos e educadores, pois sem ela o diálogo seria impossível. O autor ressalta:

A confiança vai fazendo os sujeitos dialógicos cada vez mais companheiros na pronúncia do mundo. Se falha esta confiança, é que falharam as condições discutidas anteriormente. Um falso amor, uma falsa humildade, uma debilitada fé nos homens não podem gerar confiança. [...] Dizer uma coisa e fazer outra, não levando a palavra a sério, não pode ser estímulo à confiança. (FREIRE, 1987, p.82).

O ato do diálogo é um momento de doação, já que ali cada vez que o sujeito se coloca, dá sua opinião, mostra para o outro sua face, parte de si. Desta forma, não é possível que um se sinta à vontade para compartilhar sua verdade com o outro se não lhe tem confiança.
Outra questão importante de se ressaltar sobre o ensino problematizador é que ele se dá em tudo que envolve a aula. Sendo assim, o planejamento das aulas, a escolha dos conteúdos programáticos, o relacionamento com os alunos e toda metodologia de sala de aula devem envolver essa concepção da problematização. Por isso, também os conteúdos e conceitos do teatro escolhidos para a aula a ser ministrada devem ser vinculados a esse caráter que dê abertura ao diálogo.

[...] uma metodologia que não pode contradizer a dialogicidade da educação libertadora. Daí que seja igualmente dialógica. Daí que, conscientizadora também, proporcione, ao mesmo tempo, a apreensão dos "temas geradores" e a tomada da consciência dos indivíduos em torno dos mesmos. (FREIRE, 1987, p. 87).

Um educador humanista jamais escolherá seus conteúdos programáticos baseados na sua visão de mundo ideal, mas sim nas problematizações feita por seus educandos. É necessário que o docente conheça os estudantes e a partir da visão de mundo deles é que se escolherão conteúdos a serem pensados. Utiliza-se aqui a expressão “pensados”, porque também não é natural da ação problematizadora aplicar conteúdos, mas sim pensá-los e refleti-los em conjunto com os educandos.
Dessa forma, parece adequado vincular o ensino de teatro fundamentado no Teatro do Oprimido e nos jogos teatrais. Tais pedagogias se baseiam no fazer teatral autônomo, no qual indivíduos a partir das suas vivências e experiências e na interação com o outro, criem sua própria trajetória artística e experiencie com seu próprio corpo essa outra forma de expressão.

Nesse sentido, a produção do conhecimento se dá através da vivência, da ação, da reflexão crítica, da curiosidade, da relação com o que se quer aprender. Na atividade de jogo teatral, o jogador é estimulado a desenvolver o seu conhecimento sobre determinado objeto, a partir das suas experiências pessoais. (SILVEIRA, 2008, p. 172).

No ensino de teatro baseado no jogo cada aluno solucionará o jogo da forma que acreditar mais adequada. Por exemplo, no jogo “Ação-Narração” (SPOLIN, 2010) um dos participantes conta uma história de sua invenção, enquanto os seus colegas interpretam essa história sem palavras, apenas com o corpo, sem que alguém lhes diga como fazer isso. Por esse motivo o teatro está profundamente ligado ao ato de “ouvir a palavra do outro” que pode ser pelo uso da fala, como por outro meio.
Além disso, o teatro traz em seus conteúdos a expressão corporal, ou seja, uma forma de linguagem baseada apenas do corpo. Tal conceito deve ser encarado como qualquer outro tipo de linguagem, pela qual todos nos expressamos. Se existe certa importância em ler e escrever para se comunicar com o mundo, aprender a expressar suas ideias, pensamentos e sentimentos, também com o corpo deveria-se ter o mesmo grau de relevância. A expressão corporal é apenas mais uma forma de diálogo.
Por fim, o teatro do oprimido prevê em sua teoria o mesmo que prevê a educação problematizadora: questionar a sua realidade para, a partir dela, dizer a sua palavra, que deve impulsionar a transformação da realidade.

A palavra enquanto compreensão exige a transformação e torna-se indissociável da necessidade de atuação: torna-se, pois, palavração, segundo o neologismo de Paulo Freire. A partir do momento em que alguém compreende e toma consciência do seu papel no mundo, sua transformação se torna inevitável e gera, portanto, uma ação para atingir tal fim. (ROSSATO, 2010, p. 325-326).

O teatro do oprimido busca trazer a realidade para a cena, fazendo com que esta seja questionada e transformada. Tal metodologia traz em seu arsenal um apanhado de técnicas que tem em seu cerne o objetivo de questionar o mundo. Dar o espaço para que as crianças digam sua palavra através da ação teatral é como se fosse um ensaio para a realidade.
Nossa prática em sala de aula será fundamentada a partir de tais conceitos da educação problematizadora, buscando sempre um ensino que tenha significação para o educando. Tal pesquisa se dará no decorrer do ano de 2013 e apontará características de um caminho a ser traçado quando se busca uma educação com esse princípio.

Referências:

BOAL, Augusto. Jogos para atores e não-atores. 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2006.
BRASIL. Ministério da Educação. Programa Mais Educação. Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=86&id=12372&option=com_content&view=article/> Acesso em 08 Abr. de 2013.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.
ROSSATO, Ricardo. PRÁXIS. in: STRECK, Danilo R.; REDIN, Euclides; ZITKOSKI, Jaime J. (org.). Dicionário Paulo Freire. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
SILVEIRA, Fabiane Tejada da. O jogo teatral na escola: uma reflexão sobre a construção de sujeitos históricos. Pelotas: Universitária UFPEL, 2008.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010.




[1] O projeto TOCO surgiu em 2010 pela vontade que os acadêmicos do curso de Teatro-Licenciatura tinham de levar o que estavam aprendendo para as comunidades de Pelotas. Atualmente o projeto atua apenas na comunidade da Z3. O projeto que nasceu como extensão também deu origem a um projeto de pesquisa intitulado “O teatro do oprimido de Augusto Boal nos processos de formação e auto-formação”, coordenado pela professora Fabiane Tejada da Silveira do Centro de Artes da UFPel.
[2] O teatro do oprimido é um arsenal de técnicas e jogos teatrais que buscam a libertação do oprimido por meio da ação teatral (BOAL, 2006).
[3] O jogo teatral é um conceito elaborado nos anos 60 pela americana Viola Spolin. Tal conceito prevê uma atividade em grupo que proporcione aos que dela participam aquisição da linguagem teatral. O arsenal de jogos teatrais que Spolin sistematizou proporciona uma busca pela criatividade na solução de “problemas” cênicos. Tais jogos estão calcados na ação, e não na palavra. (SPOLIN, 2010)
[4] O programa Mais Educação busca desenvolver atividades fora do horário curricular para complementar a formação do educando. É oferecido pelo Ministério da Educação (MEC) em escolas com baixo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e que estão situadas em cidades com mais de 163 mil habitantes.
[5] Entende-se por experiência estética a vivência de um espetáculo ou objeto artístico a partir da ótica da estética teatral, que por sua vez, compreende-se como aquela que formula o que compõe determinada obra artística. (PAVIS, 2008).
[6] Grifos do autor.
[7] Práxis é um conceito que está presente em toda teoria freireana. Trata-se da união entre teoria e prática, ou seja, a partir da teorização que se faz a partir da problematização promovo uma ação transformadora. A partir da palavra coloco em prática a transformação. (ROSSATO, 2010).

terça-feira, 27 de novembro de 2012

XXI Congresso de Iniciação Científica da UFPEL



O Teatro do Oprimido na Comunidade também esteve presente no XXI Congresso de Iniciação Científica da Universidade Federal de Pelotas. Na manhã de Quarta-feira (21/11) a tocomana Graziele Barros compareceu a palestra sobre Currículo Lattes, onde foram esclarecidas algumas dúvidas acerca desse currículo padronizado do pesquisador. A apresentação de nossa pesquisa se deu em formato de pôster e ocorreu na tarde da última quinta-feira (22/11), onde estavam presentes as tocomanas Graziele Barros e a Professora Fabiane Tejada. Abaixo encontra-se o resumo expandido que está publicado nos anais do referente evento.


TEATRO DO OPRIMIDO PARA FORMAÇÃO E AUTOFORMAÇÃO DE SUJEITOS

BARROS, Graziele Soares de1; DIAS, Mauricio Mezzomo²; SILVEIRA, Fabiane Tejada da³

1Acadêmica de Teatro – Licenciatura/UFPEL – graziele.barros@yahoo.com.br; 2Acadêmico de Teatro – Licenciatura/UFPEL – mauriciomezzomo.ator@hotmail.com; 2 Professora Adjunto no Curso de Teatro – Licenciatura – CeArt/UFPEL. ftejadadasilveira@ig.com.br.

1 INTRODUÇÃO

Nossa pesquisa tem como base a experiência no Projeto de Extensão Teatro do Oprimido na Comunidade (TOCO), que leva oficinas de teatro para bairros periféricos da cidade de Pelotas. A partir deste projeto buscamos a relação entre o Teatro do Oprimido – técnica teatral elaborada por Augusto Boal para democratização do teatro – e a formação e autoformação dos sujeitos envolvidos.
 Quando discutimos o conceito de formação em nosso estudo, nos referimos à formação de professores de teatro, pois os acadêmicos ministrantes das oficinas nos bairros, estudam no Curso de Teatro-Licenciatura da UFPel. O conceito de autoformação é trabalhado a partir das reflexões feitas com os acadêmicos e os demais sujeitos envolvidos com o teatro que participam do projeto nos bairros.
Augusto Boal pretende um teatro do Oprimido, que seja “[...] DOS oprimidos, PARA os oprimidos, SOBRE os oprimidos e PELOS oprimidos [...]” (BOAL, 2011, p.30). Isso que Boal propõe já nos mostra uma grande preocupação com as biografias dos sujeitos - que são produtores de um teatro que os revela - e um grande interesse na apropriação das técnicas do fazer teatral por esses, sejam eles atores ou não atores. O teatro do oprimido não é apenas mais uma forma de arte, mas um projeto de emancipação de vidas.
Boal quer dar a todos o direito da ação no teatro, ou seja, fazer com que espectadores não mais sejam apenas passivos perante a cena. Ao colocarmos biografias em ação, em um mesmo espaço e tempo - com o intuito dos sujeitos refletirem-se na própria ação - já estamos provocando o processo de formação e autoformação. Nas oficinas ministradas pelo TOCO procuramos, a partir da sensibilização corporal, compartilhar experiências teatrais e de vida. Quase nunca precisamos correr atrás das opressões, elas surgem espontaneamente através do contar-se na ação.

2 METODOLOGIA (MATERIAL E MÉTODOS)

No início do trabalho criamos um ambiente propício para a construção de saberes e de conhecimentos, para que a todo tempo, enquanto estamos em atividade teatral os sujeitos façam a relação com o que vivem e com o que viveram, buscando com tais atividades cênicas que os sujeitos reflitam sobre o processo de autoformação. A pesquisa qualitativa com observação participante e coleta de narrativas das pessoas envolvidas nos projetos nos pareceu o melhor método para identificar quais foram ás relações feitas pelos sujeitos da pesquisa, já que a narrativa proporciona a produção do saber, e não seu consumo.
Trabalhamos com pesquisa bibliográfica durante todo o processo de desenvolvimento das oficinas nas comunidades, tendo em vista que os sujeitos, futuros professores envolvidos com a pesquisa utilizam do referencial teórico para construir suas relações com a prática da comunidade. Essa metodologia possibilita que a partir de nossas reflexões pessoais sobre nossa práxis possamos dar novos significados ao que aprendemos, tornando ressignificado o conhecimento.

o método autobiográfico tem-se mostrado como opção e alternativa às disciplinas das ciências humanas, para fazer mediação entre a história individual e a história social, visto que, “o seu caráter essencial, é a sua historicidade profunda, a sua unicidade” ao afirmar que toda práxis humana é reveladora das apropriações que os indivíduos fazem das relações e das próprias estruturas sociais, para ele podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma práxis individual. (MOURA apud. SILVEIRA, 2010, p.2)

Para produzir as reflexões autobiográficas utilizamos de narrativas orais e escritas, pois tanto uma quanto outra têm seu valor enquanto produção de saberes. “Saber narrar é não apenas exercício de memória, mas é também estimular a tomada de posição” (FREIRE; NOGUEIRA, 1991, p. 28). A narrativa provoca a reflexão e pode ser compreendida também como uma forma de ação.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

O projeto TOCO existe desde 2010 e surgiu da vontade de acadêmicos da Licenciatura em Teatro de colocar na prática os ensinamentos de Boal. Desde então o projeto já passou por duas comunidades: Dunas e Z3. Atualmente trabalhamos na comunidade da Z3 atendendo a crianças de 12 a 15 anos que têm interesse em fazer teatro.
Dentro de nossas oficinas trabalhamos com as técnicas de Augusto Boal, mas também com outros autores teatrais, fazendo com que metodologias diferentes tenham o mesmo objetivo: torna-los sujeitos da ação. Isso porque acreditamos que a consciência corporal e lúdica faz com que as pessoas reflitam sobre sua realidade, sem que seja necessário explicitarmos essa busca, tornando o processo orgânico e natural.
Dentro de nossos referenciais teóricos encontramos também Paulo Freire e a educação popular como eixo norteador. Um de seus ensinamentos válidos em nossa prática é o uso da cultura que o sujeito nos traz. Dessa forma nossas oficinas se dão de acordo com a vontade dos envolvidos no processo, que coincidem com os nossos objetivos. Nesse projeto não buscamos uma cartilha fechada de metodologias prontas para serem aplicadas, não utilizamos os chamados “pacotes” (FREIRE; NOGUEIRA, 1991), muito pelo contrário organizamos o saber de acordo com as oficinas. “Esse saber organizado se compõe a partir de situações de reconhecimento.” (FREIRE; NOGUEIRA, 1991, p. 27).
Além disso, para nós acadêmicos esse é um projeto rico, pois agrega: teoria, prática sobre a teoria e experiência de vida. É esse o diferencial do projeto e o que faz com que nós também sejamos sujeitos da ação, pois não estamos inseridos como meros transmissores de conhecimentos, se não que também estamos em constante aprendizado e autoconhecimento.

4 CONCLUSÃO

O TOCO é um projeto que está em andamento e que ainda tem muitos caminhos a percorrer. Isso porque o processo de formação e autoformação dos sujeitos pelas técnicas do oprimido precisam de tempo para reconhecimentos, reflexão e ação. Ainda nesse projeto precisamos ir à busca de maior referencial teórico para auxiliar-nos em nossa prática. Também é necessário um tempo maior com o grupo o qual estamos trabalhando na Z3 para que seja possível o levantamento de dados referente à pesquisa com aqueles sujeitos.
O trabalho do TOCO é comprometido com o trabalho na comunidade e visa à promoção de meios para a capacitação de sujeitos capazes de se pensarem no mundo, de agirem e promoverem transformação social. Através da metodologia que nos apropriamos, buscamos formar sujeitos a partir de suas histórias de vida. Ao narrar-se em ação o sujeito se percebe e se transforma. Deparando-se com outras histórias que convergem, e ao mesmo tempo, divergem da sua, o ser da ação promove sua própria formação. O processo onde se encontram educadores e educandos em um mesmo tempo e espaço, trazendo para esse suas autobiografias, é inevitavelmente formador e autoformador para ambos.

5 REFERÊNCIAS

BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

FREIRE, Paulo; NOGUEIRA, Adriano. Que fazer – Teoria e Prática em Educação Popular. Petrópolis: Vozes, 1991.

SILVEIRA, Fabiane Tejada da. Revisitando pressupostos histórico-filosóficos para pensar a pesquisa autobiográfica nos processos formativos. In: Anais do VI CICLO DE ESTUDOS – EDUCAÇÃO E FILOSOFIA: TEM JOGO NESSE CAMPO?, UFPel -Pelotas, 2010.

 

I Seminário Internacional de Ensino de Arte - Cultura visual, Escola e Cotidiano



Na manhã de quinta-feira (22/11) o projeto Teatro do Oprimido na Comunidade compareceu ao I Seminário Internacional de Ensino de Arte para apresentar um relato da pesquisa e da extensão. Na sala de comunicações diversas áreas de artes estavam presentes, dentre elas destaca-se a presença dos acadêmicos da música licenciatura mostrando como se dava o ensino de música para séries iniciais (já que agora virou lei). O diálogo entre as áreas foi bastante enriquecedor para nos conhecermos e inter-relacionarmos nossas práticas. Abaixo está o artigo que foi publicado nos anais do referente evento.
 

TEATRO DO OPRIMIDO PARA FORMAÇÃO E AUTOFORMAÇÃO DE SUJEITOS

BARROS, Graziele Soares de¹; DIAS, Mauricio Mezzomo²; SILVEIRA, Fabiane Tejada da³.

¹Acadêmica de Teatro – Licenciatura/UFPEL; ²Acadêmico de Teatro – Licenciatura/UFPEL; ³Professora Adjunto no Curso de Teatro – Licenciatura – CeArt/UFPEL.

Resumo:
Este trabalho relata o estado da pesquisa realizada pelos sujeitos envolvidos no projeto de extensão Teatro do Oprimido na Comunidade. O projeto iniciado em 2010 tem como objetivo pesquisar a formação dos alunos de Teatro-Licenciatura envolvidos, e a autoformação dos mesmos e dos demais sujeitos engajados. Atualmente são oferecidas oficinas de Teatro do Oprimido na comunidade Z3 para crianças de 12 a 15 anos.

Nossa pesquisa tem como base a experiência no Projeto de Extensão Teatro do Oprimido na Comunidade (TOCO), que leva oficinas de teatro para bairros periféricos da cidade de Pelotas. A partir deste projeto buscamos a relação entre o Teatro do Oprimido – técnica teatral elaborada por Augusto Boal para democratização do teatro – e a formação e autoformação dos sujeitos envolvidos.
Quando discutimos o conceito de formação em nosso estudo, nos referimos à formação de professores de teatro, pois os acadêmicos ministrantes das oficinas nos bairros, estudam no Curso de Teatro-Licenciatura da UFPel. O conceito de autoformação é trabalhado a partir das reflexões feitas com os acadêmicos e os demais sujeitos envolvidos com o teatro que participam do projeto nos bairros.
Augusto Boal pretende um teatro do Oprimido, que seja “[...] DOS oprimidos, PARA os oprimidos, SOBRE os oprimidos e PELOS oprimidos [...]” (BOAL, 2011, p.30). Isso que Boal propõe já nos mostra uma grande preocupação com as biografias dos sujeitos - que são produtores de um teatro que os revela - e um grande interesse na apropriação das técnicas do fazer teatral por esses, sejam eles atores ou não atores. O teatro do oprimido não é apenas mais uma forma de arte, mas um projeto de emancipação de vidas.
Boal quer dar a todos o direito da ação no teatro, ou seja, fazer com que espectadores não mais sejam apenas passivos perante a cena. Ao colocarmos biografias em ação, em um mesmo espaço e tempo - com o intuito dos sujeitos refletirem-se na própria ação - já estamos provocando o processo de formação e autoformação. Nas oficinas ministradas pelo TOCO procuramos, a partir da sensibilização corporal, compartilhar experiências teatrais e de vida. Quase nunca precisamos correr atrás das opressões, elas surgem espontaneamente através do contar-se na ação, ou como diria Gianni Rodari, “com as estórias e os procedimentos fantásticos para produzi-las, estamos ajudando as crianças a entrar na realidade muito mais pela janela que pela porta. É mais divertido, e [sic], portanto mais útil.” (RODARI, 1982, p.30) O que propomos a maioria das vezes é fazer com que os participantes da oficina tenham a oportunidade de entrar na realidade através da janela, ou seja, de forma indireta, mais prazerosa do que pela porta.
Nosso objetivo é proporcionar a elaboração de narrativas pessoais provocadas pela prática do Teatro do Oprimido e através delas identificar os pressupostos teórico-metodológicos que fazem interface com teatro e educação e, desta forma, enriquecer os conhecimentos produzidos na área das pesquisas autoformativas - pensando sempre que a formação do sujeito se dá a partir da tomada de consciência de si no próprio processo, ou seja, a formação não é um produto acabado. Nossos sujeitos são os futuros professores de teatro e os participantes das comunidades atingidas pelo projeto TOCO.
No início do trabalho da extensão na comunidade criamos um ambiente propício para a construção de saberes e de conhecimentos, para que a todo tempo, enquanto estamos em atividade teatral os sujeitos façam a relação com o que vivem e com o que viveram, buscando com tais atividades cênicas que os sujeitos reflitam sobre o processo de autoformação. A pesquisa qualitativa, com observação participante e coleta de narrativas, orais e escritas, das pessoas envolvidas nos projetos, nos pareceu o melhor método para identificar quais foram as relações feitas pelos sujeitos da pesquisa, já que a narrativa proporciona a produção do saber, e não seu consumo.
Trabalhamos com pesquisa bibliográfica durante todo o processo de desenvolvimento das oficinas nas comunidades, tendo em vista que os sujeitos, futuros professores envolvidos com a pesquisa, utilizam este referencial teórico para construir suas relações com a prática da comunidade. Essa metodologia possibilita que a partir de nossas reflexões pessoais sobre nossa práxis possamos dar novos significados ao que aprendemos, tornando ressignificado o conhecimento.

o método autobiográfico tem-se mostrado como opção e alternativa às disciplinas das ciências humanas, para fazer mediação entre a história individual e a história social, visto que, “o seu caráter essencial, é a sua historicidade profunda, a sua unicidade” ao afirmar que toda práxis humana é reveladora das apropriações que os indivíduos fazem das relações e das próprias estruturas sociais, para ele podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma práxis individual. (MOURA apud. SILVEIRA, 2010, p.2)

Para produzir as reflexões autobiográficas utilizamos de narrativas orais e escritas, pois tanto uma quanto outra têm seu valor enquanto produção de saberes. O saber científico se dá através de conceitos escritos, já o saber popular através das narrativas orais, ambos formam os sujeitos e promovem reflexões. “Saber narrar é não apenas exercício de memória, mas é também estimular a tomada de posição” (FREIRE; NOGUEIRA, 1991, p. 28). A narrativa provoca a reflexão e pode ser compreendida também como uma forma de ação.
O projeto TOCO existe desde 2010 e surgiu da vontade de acadêmicos da Licenciatura em Teatro de colocar na prática os ensinamentos de Boal. Desde então o projeto já passou por duas comunidades: Dunas e Z3. Foi em 2011 então que se criou o Grupo de Estudos e Pesquisas em Teatro, Educação e Práxis Social, para que pudéssemos criar um material bibliográfico sobre nossas atuações. Dentro dessa temática surgiu a pesquisa sobre formação e autoformação dos sujeitos relacionados ao projeto. Atualmente trabalhamos na comunidade da Z3 atendendo a crianças de 12 a 15 anos que têm interesse em fazer teatro.
Dentro de nossas oficinas trabalhamos com as técnicas de Augusto Boal, mas também com outros autores teatrais, fazendo com que metodologias diferentes tenham o mesmo objetivo: torná-los sujeitos da ação. Isso porque procuramos desenvolver o que Boal (2011) chama de “plano geral da conversão do espectador em ator”, que conta com 4 etapas: conhecimento do corpo, tornar o corpo expressivo, o teatro como linguagem e o teatro como discurso. Isso porque acreditamos que a consciência corporal e lúdica faz com que as pessoas reflitam sobre sua realidade, sem que seja necessário explicitarmos essa busca, tornando o processo orgânico e natural.
Dentro de nossos referenciais teóricos encontramos também Paulo Freire e a educação popular como eixo norteador. Um de seus ensinamentos válidos em nossa prática é o uso da cultura que o sujeito nos traz. Dessa forma nossas oficinas se dão de acordo com a vontade dos envolvidos no processo, que coincidem com os nossos objetivos. Nesse projeto não buscamos uma cartilha fechada de metodologias prontas para serem aplicadas, não utilizamos os chamados “pacotes” (FREIRE; NOGUEIRA, 1991), muito pelo contrário organizamos o saber de acordo com as oficinas. “Esse saber organizado se compõe a partir de situações de reconhecimento.” (FREIRE; NOGUEIRA, 1991, p. 27).
Além disso, para nós acadêmicos esse é um projeto rico, pois agrega: teoria, prática sobre a teoria e experiência de vida. É esse o diferencial do projeto e o que faz com que nós também sejamos sujeitos da ação, pois não estamos inseridos como meros transmissores de conhecimentos, se não que também estamos em constante aprendizado e autoconhecimento. Como diz Freire em seu livro A Pedagogia da Autonomia (1996): “Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”(p.47).
O TOCO é um projeto que está em andamento e que ainda tem muitos caminhos a percorrer. Isso porque o processo de formação e autoformação dos sujeitos pelas técnicas do oprimido precisam de tempo para reconhecimentos, reflexão e ação. Ainda nesse projeto precisamos ir à busca de maior referencial teórico para auxiliar-nos em nossa prática. Também é necessário um tempo maior com o grupo o qual estamos trabalhando na Z3 para que seja possível o levantamento de dados referente à pesquisa com aqueles sujeitos.
O trabalho do TOCO é comprometido com o trabalho na comunidade e visa à promoção de meios para a formação de sujeitos capazes de se pensarem no mundo, de agirem e promoverem transformação social. Através da metodologia que nos apropriamos, buscamos formar sujeitos a partir de suas histórias de vida. Ao narrar-se em ação o sujeito se percebe e se transforma. Deparando-se com outras histórias que convergem, e ao mesmo tempo, divergem da sua, o ser da ação promove sua própria formação. O processo onde se encontram educadores e educandos em um mesmo tempo e espaço, trazendo para esse suas autobiografias, é inevitavelmente formador e autoformador para ambos.

REFERÊNCIAS

BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
FREIRE, Paulo; NOGUEIRA, Adriano. Que fazer – Teoria e Prática em Educação Popular. Petrópolis: Vozes, 1991.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996
SILVEIRA, Fabiane Tejada da. Revisitando pressupostos histórico-filosóficos para pensar a pesquisa autobiográfica nos processos formativos. In: Anais do VI CICLO DE ESTUDOS – EDUCAÇÃO E FILOSOFIA: TEM JOGO NESSE CAMPO?, UFPel -Pelotas, 2010.
RODARI, Gianni. Gramática da Fantasia. São Paulo: Summus, 1982.